Pretinho de Assis, um dos meus 13 gatos, é uma verdadeira sex machine. Em dezembro do ano passado, ele esteve gravemente doente, os veterinários, inclusive, achavam que era caso perdido. Bom, milagrosamente, no Natal, ele se recuperou e voltou aqui pra casa, salvo e mais elétrico do que nunca. Aliás, o nome dele é uma homenagem a São Francisco de Assis (nota: em fevereiro, visitarei Assis, na Itália. Pagarei promessa pro santo).
Bom, o Pretinho cresceu, “virou mocinho”, e, além dele, tínhamos mais 4 gatas não castradas aqui em casa: a Madame, a Retard, Nost e Troika. Pretinho, a sex machine, o super macho alfa, um adolescente com os hormônios em plena ebulição…engravidou todas elas. Digo, quase todas…a Nost escapou.
Notamos a gravidez da Madame e da Retard muito tarde, e decidimos que elas teriam os filhotes. A Troika, porém, foi castrada semana passada. Eu sei que aborto é feio e mau, mas, como penso, inclusive para seres humanos, é melhor não nascer do que nascer e não ter uma vida digna. Como já estamos com a capacidade felina da casa mais do que estourada, decidimos que os filhotes da Madame e da Retard, assim que desmamados, seriam levados para adoção.
Ontem de noite, eu deveria ter dormido mais cedo, pois hoje de manhã eu teria aula de italiano. Obviamente, não fui dormir…fiquei vendo Prison Break até as 4h. Meu irmão e minha mãe decidiram assistir o último episódio da temporada, e eu fui para a cama. Quando eram umas 15 pras 5, minha mãe me acordou: Soraya, Soraya! A Madame teve os filhotes!!
Há uns tempos a Madame estava procurando cantos na casa para fazer o ninho dela, e eu notei que ela tinha gostado muito de umas caixas-arquivo que têm embaixo duma prateleira no corredor de casa. Não é um bom lugar para uma gata dar a luz: é estreito e apertado, e os riscos de sufocar os filhotes são muito grandes. Óbvio que a Madame teve os bebês em uma das caixa-arquivos.
Bom, como já esperávamos o nascimento (na verdade, esperávamos para daqui uns 7 ou 10 dias), tínhamos uma caixa maior guardada… minha mãe forrou com jornal e eu fui incumbida de transportar a nova mãe e sua cria para o ninho maior. Um dos filhotinhos ainda estava com o cordão umbilical preso à placenta, e sobrou para mim ter que manusear aquele…material orgânico…todo! Sem problemas, sou sangue frio, não tenho nojo nem medo, e nesses momentos, penso se não vale mesmo a pena atirar tudo para cima e ser veterinária…mas enfim, coloquei a gata e seus três gatinhos na caixa maior.
Não consegui dormir. Teria que acordar as 7h40min de qualquer maneira, e achei os bebês muito pequenos…acreditei que não iriam vingar, iriam morrer durante a noite por qualquer razão. A natureza sabe o que faz, pensei eu, mas não aceitei.
Os filhotinhos eram muito…feios. Um filhote de gato nunca é bonito: eles nascem molhados, sujos, parecem ratos, com olhos fechados e patinhas que parecem mãos. É creepy. Um dos nenês é todo branco, o que me deixou super feliz, já que os pais são preto-e-branco. O outro filhote é um pb mais “normal”, com bastante preto, barriga branca…e um terceiro, o que achei mais fashion, é todo branco, mas tem o rabo, a cabeça e uma mancha redondona em cima do lombo, preta.
Às 7h20min, levantei da cama…fui correndo olhar a caixa. Nunca vi a Madame tão feliz na vida. Ela é uma gata assustada, coitada. Os outros gatos não vão muito com a lata dela, ela vive se escondendo e tal. Mas, no ninho, com seus 3 filhotinhos (vivíssimos, graças a Deus!), ela estava ronronando, com um brilho novo no olhar. Aliás, lembro que, ontem de noite, quando transferi os bichos de caixa, ela foi a primeira que coloquei no novo ninho, e não consigo esquecer o misto de pânico e amor que ela tinha nos olhos quando me viu pegando os filhotes…acho que ela pensou que eu pudesse roubá-los, matá-los ou qualquer coisa assim. Foi mágico!
Eu já tinha visto outros gatos nascerem. Em 99, acompanhei cada segundo do nascimento da Filhona, do Sha e do Boizinho, mas sempre é um momento único. E agora, olhando pros filhotinhos da Madame mamando, cheios de fome, penso em tudo que eles ainda tem pela frente. Já sei, de antemão, que vai ser triste e chato ter que levar as crianças para adotar, mas, com outros 13 gatos aqui em casa, os bichanos já estão entrando em conflito uns com os outros, e não quero que eles sofram aqui. Olhando para aqueles ratinhos horrorosos que vão se tornar, em breve, belos gatinhos, e para aquela mãe feliz, carinhosa e paciente (porque haja paciência para amamentar 3), penso que, after all, o que importa mesmo é a vida, independente de sua forma. Nada no mundo paga o som do ronrom de uma gata mãe, ou o som dos miados dos seus filhotinhos. Nada, no mundo, paga a expressão de orgulho da Madame ou o apego à vida dos filhos dela (apego esse que herdaram do pai, o Pretinho de Assis, diga-se de passagem).
Ganhei o dia. Aliás, ganhei a semana! Agora, esperarei ansiosa o nascimento dos filhotes da Retard.